Foi um daqueles momentos de arrebatamento e privação de sentidos, em que seres humanos abrem mão de todo o avanço intelectual e emocional que levaram milênios para evoluir e retornam ao estágio de animais irracionais em que, segundo a teoria da evolução, tudo começou. O homem segura a mulher pelos cabelos e beija sua boca como se quisesse engolir seus lábios carnudos e macios, enquanto vai tirando a roupa com a violência de quem deseja rasgar todo o tecido e vai conduzindo-a, ainda pelos cabelos, até o quarto. Uma espécie de estupro consentido, em que a mulher se sente a fêmea mais desejada do reino animal, no momento em que é jogada na cama por um macho faminto que arranca sua calcinha, abre suas pernas em um gesto brusco e arranca da cueca o instrumento rijo e ereto que se apresenta como uma arma nas mãos de um guerreiro a caminho da mais épica das batalhas. O homem saca da gaveta um preservativo, rasga com o dente a embalagem, e, após vestir o escudo de látex, toma posse da mulher, com volúpia, em movimentos rítmicos de penetração profunda, enquanto mantém sua presa sem defesa sob seu corpo forte. Para o homem, uma prazerosa demonstração de virilidade e de potência; para a mulher, a submissão diante de tamanha agressividade se torna o tempero do sexo.
O gozo veio rápido, sinalizado por urros masculinos e gemidos femininos. Pedro caiu para o canto, exausto, com o suor escorrendo por sua testa e por todos os poros de seu corpo. Érica, ainda trêmula, permaneceu na mesma posição, deitada e com as pernas abertas. Ficaram alguns minutos em total silêncio. De um lado, Pedro tentava entender as razões que o levaram a agir daquela maneira tão selvagem e contrária à sua personalidade pacífica; ao seu lado, Érica, mesmo assustada com a violência do parceiro, ainda se recuperava da sensação de prazer que ele havia provocado. Os únicos sons que se faziam ouvir eram os de suas respirações ofegantes.
Pedro, deitado com a cabeça no travesseiro apoiado na cabeceira da cama, levou a mão ao criado mudo, tirou um cigarro e acendeu-o, sentindo alívio imediato no ato de tragar e, em seguida, assoprar a fumaça. Estava exaurido, com a boca seca e o coração acelerado. Não tinha o fôlego exigido para aquela maratona. Naquele dia, ele havia se irritado muito com Érica após uma discussão sobre o mesmo tema: a abstinência sexual que ele estava forçando-a a fazer há mais de uma semana por alegações como cansaço, tensão e muita pressão psicológica. Ele era advogado com função mediana em um escritório de advocacia, mas tinha ambição: queria entrar antes dos 30 anos para o rol dos altos salários do judiciário e estudava desesperadamente para passar em um concurso público dali a um mês. Enquanto a libido dela só aumentava, a dele ia para o chinelo.
Érica era esportista, tinha um ritmo que nem todo homem conseguia acompanhar. Malhava, corria, nadava e fazia sexo com a mesma intensidade. Para ela, tudo era esporte, em todas as modalidades ela dedicava disciplina e buscava a superação. O sexo, então, encarava como o esporte preferido. Quase uma ninfomaníaca. Ao contrário de Pedro, cuja natureza era diferente da de outros homens. Até gostava de sexo, mas não tinha como prioridade. A prática deveria ser quase que um ritual sagrado, que exigia concentração e total relaxamento. Mais mente do que corpo.
Naquela noite de sábado, entretanto, Érica provocou tanto que, com raiva, Pedro se viu dando justamente aquilo que ela mais esperava dele em termos de sexo: mais velocidade e força, menos mantra e controle de respiração. Mas logo depois se arrependeu: Pedro perguntou se havia machucado a noiva e ao perceber que ela havia gostado logo se esvaiu em mil desculpas para não levar o jogo para um segundo tempo como ela gostaria.
Érica queria goleada. Era do tipo de amante fogosa, que gostava de sugerir novas posições, assistir filmes de sacanagem, comprar lingeries provocantes e ligar toda noite antes de dormir pedindo para fazer sexo verbal e mandando mensagens obscenas pelo celular durante o dia. Já Pedro era o oposto: não achava graça em fazer sexo por telefone, não gostava de trocar mensagens eróticas e, na primeira vez em anos em que fugia da rotina do papai-e-mamãe, pedia desculpas formalmente à noiva… Para completar, o cara não transava sem camisinha – nunca – e, logo após o gozo, corria para se lavar.
Toda dengosa, Érica foi se aninhando no peito suado do amante. Insistente, ela se pôs a acariciar o sexo adormecido do noivo, na tentativa de tirá-lo do vestiário para entrar em campo. Pedro olhou com seriedade para a noiva. “Érica, eu não sei o que deu em mim hoje, mas garanto que esse impulso selvagem não irá se repetir. Não espere de mim atitudes semelhantes às de um animal no cio”.
“E eu que acreditei que, depois dessa demonstração inédita de macheza, você deixaria de ser tão careta…”, ela lamentou, jogando-se na cama, profundamente frustrada.
Pedro não ouviu o último lamento de Érica. Já estava no banheiro, debaixo do chuveiro, sentindo um misto de prazer e alívio à medida que a água morna caía sobre sua pele. De fato, sentia-se sujo e precisava se lavar com muita água e sabão.
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Érica tinha 25 anos, morava no Cruzeiro com os pais, onde também ficava a academia de ginástica na qual era sócia de Ricardo, antigo colega de faculdade. Os dois tinham uma paixão em comum: o esporte. Além da sociedade profissional, eram também colegas de treino esportivo. Isso fazia com que passassem a maior parte do tempo juntos. Quando não estavam na academia, estavam praticando atividades outdoor, no Parque da Cidade, no Lago Paranoá e nas corridas que sempre acontecem em Brasília. A afinidade entre eles era visível: formavam uma dupla de sucesso no trabalho, que se complementava a olho nu e, no esporte, eram atletas extremamente disciplinados, adeptos do estilo de vida saudável, com boa nutrição e sem vícios. Não eram raras as pessoas que acreditavam que não havia apenas amizade entre Érica e Ricardo. Pareciam feitos um para o outro.
Ricardo era o maior pesadelo de Pedro. Ele sabia que os atuais amigos já haviam sido namorados na época da faculdade. E sabia que, por Ricardo, Érica ainda seria sua mulher. Eles eram o extremo oposto. Pedro não era um cara feio – ao contrário, um tipo charmoso, bastante interessante -, mas Ricardo já havia sido modelo de passarela e, com Érica, formava um casal de capa de revista. Ricardo era atleta, sem vícios; Pedro, um cara sedentário, avesso a esportes, que adorava sentar numa mesa de bar, fumando um cigarro atrás do outro, bebendo cerveja e comendo petiscos gordurosos. Enquanto Pedro era um cara de classe média que ralava muito para tentar se aproximar do padrão de vida de Érica, Ricardo era um filhinho de papai bem típico, que não fez muito esforço para custear os estudos, manter um carro importado e ter seu negócio próprio. Além disso, tinha nome: era um excelente profissional, criativo, descolado, requisitado por várias grã-finas da alta sociedade brasiliense. Já Pedro era empregado, ganhava pouco, trabalhava o dia todo percorrendo fóruns e tribunais com seu carro popular pago em suaves prestações e, à noite e aos fins de semana, ainda frequentava cursinho preparatório para concurso público.
Aos 28 anos, Ricardo era um excelente partido. Mas não estava a fim de levar nenhum relacionamento a sério. Ou melhor, quase nenhum: se Érica desejasse, ele largaria a vida mundana para ficar com ela. Pelo menos era o que ele vivia lhe dizendo por meio de indiretas. Mas Érica não lhe dava crédito, afinal, quando namoraram, ele a traiu diversas vezes, inclusive com suas amigas. Mas ela bem que, lá no seu íntimo, sentia saudades de Ricardo. Ele tinha sido seu primeiro amante, ensinara-lhe coisas que Pedro jamais havia sequer insinuado fazer. Era um homem muito sedutor, safado, que transpirava fortes emoções. Érica gostava disso, ao mesmo tempo em que buscava mais segurança. E isso Pedro lhe dava de sobra.
Só que ela não sabia lidar com um inimigo estranho: Pedro carregava consigo um sentimento de inferioridade em relação a ela. Érica vinha de uma família rica, estava acostumada com o bom e o melhor que o dinheiro pode usufruir. E era uma mulher linda, gostosa, cheirosa, bem vestida e bem relacionada: uma profissional de sucesso, muito bem sucedida, tida como referência no mercado, bajulada por todos os lados, principalmente pelos homens mais bonitos e igualmente ricos da Capital Federal. Em especial Ricardo, um cara que, por onde passava, arrancava suspiros: tinha grana, estética, status e muita fama.
Era um paradoxo. Pedro tinha tanto medo de perder Érica para alguém melhor que se intimidava na hora de satisfazê-la sexualmente. Ele mesmo não entendia como ela poderia estar com ele tendo tantos caras “melhores” ao seu redor.
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Alguns semanas depois, Érica decidiu fazer uma surpresa para Pedro. O noivo estava na reta final do concurso para o qual estava estudando arduamente e ela achava que ele precisava relaxar um pouco. Afinal, concursando estressado não faz boa prova. Um pouco antes das cinco horas da tarde, Érica saiu da academia e foi ao supermercado fazer as compras que necessitava para o jantar que pretendia fazer. Antes de seguir para o apartamento do noivo, lembrou-se de que havia esquecido o vídeo especial que havia comprado para assistir a dois e retornou à academia. Quando se aproximou da porta do escritório, Érica presenciou uma cena que afetaria tanto sua mente quanto seu corpo: Ricardo, sentado em uma poltrona reclinável, com a calça arriada e as pernas abertas, gemia baixinho, e acariciava os cabelos de Angelina – a nova secretária, recém-contratada -, que estava ajoelhada entre suas pernas.
Érica deixou o local sem ser vista. A caminho do prédio de Pedro, sentia um misto de sensações: embora estupefata pela surpresa diante do que seus olhos viam, existia também uma grande excitação. Desde o fim de seu relacionamento com Ricardo – que já fazia aniversários – estava certa de que havia tomado uma decisão consciente e irrevogável e, em nenhum momento, duvidou de que Pedro era o homem de sua vida, capaz de lhe oferecer toda a estabilidade que almejava. Mesmo assim, Érica sentiu-se, naquele momento, traída pelo ex-namorado e sócio. Em seu mais íntimo, ainda sentia que toda aquela paixão que haviam vivido na época da faculdade não havia morrido. E nem poderia: além de ter em Ricardo um amigo, nunca se esqueceria de que ele havia sido o seu primeiro homem. E que homem! Ele sempre foi o tipo que deixava qualquer mulher enlouquecida de desejo, satisfazendo-as tanto antes, quanto durante e depois. Essa característica, entretanto, era sua maior qualidade e seu maior defeito: a consciência de que era bom naquilo que fazia o envaidecia a ponto de não recusar nenhum rabo de saia.
Se não fosse pela insegurança que assombrava a sua vida durante o tempo em que namoraram, Érica jamais teria desistido de Ricardo. No começo, chegou a sentir a falta do jeito malandro dele em fazer que risse e chorasse na mesma noite, mas logo foi seduzida pela serenidade de Pedro. Mas, naquela tarde, quando seus olhos lhe trouxeram à memória a capacidade que Ricardo possuía de deixar uma mulher literalmente de joelhos, Érica viu suas pernas tremerem e suas entranhas serem invadidas por uma onda de calor. Sentia certa inveja de Angelina. E também uma revolta – afinal, a moça declarava aos quatro ventos que era evangélica e iria se casar tão virgem quanto vira ao mundo e, no entanto, estava ali, como uma prostituta desavergonhada!
Para piorar a situação, ao chegar ao apartamento de Pedro, não obteve dele a recepção que imaginava. Ele estava mais chato que de costume, empenhado em permanecer entre suas apostilas, cigarros e café. Quase não esboçou algum resquício de apetite pelo jantar que ela estava disposta a preparar, muito menos pela sobremesa que ela tinha em mente.
Mesmo estando chateada, Érica concordou em cuidar sozinha do jantar enquanto Pedro terminava seu estudo. Na verdade, estava frustrada, já que o jantar era apenas um pretexto para criar um clima romântico que favorecesse aquilo que realmente estava desejando: uma vivência sexual que não acontecia desde aquela noite de sábado. Naquela ocasião, foi presenteada pela inédita atuação, digamos, mais desenvolta de Pedro e, estranhamente, eles nunca mais fizeram nem da maneira tradicional com a qual já havia se acostumado. A única vez em que tentaram, Pedro simplesmente havia negado fogo. Argumentou que ela estava indo com muita sede ao pote, intimidando-o.
Pensando nisso, com o nível de progesterona ainda em alta, Érica abandonou os preparativos do jantar. Pedro estava tão compenetrado na digitação – dando intervalos frequentes ora para consultar alguns livros que estavam abertos sobre a bancada ora para pegar o cigarro que queimava no cinzeiro e levar à boca – que nem percebeu a chegada da noiva, que o enlaçou por trás com os braços.
“Você não quer dar uma paradinha?”, ela perguntou, toda dengosa, beijando-lhe o pescoço. Ele negou, mas ela insistiu, dizendo que tinha uma surpresa para ele. Érica foi enérgica. “Pare só uns minutinhos, Pedro. Garanto que você vai gostar”. Pedro parou de escrever e virou a cadeira giratória, ficando de frente para a noiva. “Você não ia fazer o jantar?”, ele quis saber. Ela, então, acenou que queria lhe oferecer um tira gosto antes. Mandou que se levantasse e fechasse os olhos.
Pedro não parecia estar muito disposto a satisfazer nenhuma vontade de Érica, mas obedeceu. De pé e com os olhos fechados, quando se deu conta, já estava com o short arriado e com o sexo adormecido na boca da noiva, que se ajoelhara aos seus pés para chupá-lo. Sua primeira reação foi de espanto. Pedro tentou se soltar de Érica, mas ela segurava seu membro com tanta vontade que parecia estar disposta a arrancá-lo de seu corpo com os dentes. Como se Érica insistisse em chupá-lo, Pedro decidiu relaxar e permitir que ela fosse até o fim. De certa forma, aquele gesto causava-lhe cócegas que oscilavam entre o prazer e o incômodo. Érica persistiu em seu gesto considerado obsceno pelo noivo. No entanto, ao perceber que Pedro não reagia de forma positiva aos estímulos provocados por sua língua, soltou-se dele com raiva, cuspindo no tapete felpudo toda a saliva que havia acumulado em sua boca.
Iniciaram nova discussão. Érica não entendia o que acontecia com Pedro. Se fosse outro, já estaria dentro dela. “Você perdeu o desejo por mim de vez!”, ela insistiu. “Fale a verdade! Antes, mesmo careta, cheio de preocupações com a higiene, você ainda comparecia… Agora, nem papai-e-mamãe no escuro!”
Pedro tentou ser o agente apassivador da história. “Olha, vamos fazer o seguinte: eu vou continuar estudando, você volta para a cozinha, termina de preparar nosso jantar, eu tomo um banho, nós jantamos juntos, tomamos o vinho que você trouxe e talvez até possamos assistir um filme na tevê…”, ele sugeriu.
“Um filme na tevê?”, ela se indignou. Pedro disse que iria passar um filme ótimo, romance, do jeito que ela gostava… Ela ficou furiosa. “Pedro Rodrigues, eu estou cansada de assistir ao romance dos outros. Quero viver a minha história agora, está ouvindo? Cansei de ser espectadora enquanto os outros trepam e gozam do jeito que quiserem… Quer saber de uma coisa? Foda-se tudo! Termine seu estudo, fume seus cigarros malditos, faça você o seu estrogonofe, assista você o filme que quiser… já que, para você, o melhor é ser espectador e não protagonista dessa história”
“Aonde você vai?”, ele quis saber, vendo que ela saía pegando sua bolsa e seu casaco sobre o sofá.
“Procurar alguém para fazer comigo um filme de sexo selvagem e muita sacanagem, do jeito que o diabo gosta!”
Érica saiu do apartamento batendo a porta. Pedro deu um sorriso irônico e acendeu um cigarro, bem mais preocupado com seu estudo do que com o ataque histérico da noiva.
Enquanto Pedro prosseguia em seu trabalho no computador, dando pouca ou nenhuma importância ao seu desabafo, Érica circulava pela cidade sem rumo. Quando se viu, já estava em frente à casa de Ricardo. Ao ver que era a sócia quem tocava o interfone, ficou bastante surpreso, já que, àquela hora, ela deveria estar em seu jantar romântico no apartamento do Pedro. Alterada, visivelmente, Érica disse que precisava conversar seriamente com ele.
Ricardo havia acabado de sair do banho, ainda estava cheirando a sabonete e xampu, de short e sem camisa, terminando de se enxugar. Foram para a cozinha, onde ele terminava de preparar o peixe assado que comeria no jantar. Ele bebia uma taça de vinho, ofereceu e ela aceitou. Érica não era adepta a bebidas alcoólicas. Quando bebia, era porque estava realmente nervosa.
Érica foi logo dizendo que tinha visto tudo entre ele e a Angelina. Ricardo tentou se explicar, mas ela não quis ouvir. Ia explicar o que? Que foi atacado pela falsa virgem? Ele negou que tivesse sido atacado… e também que Angelina era uma falsa virgem.
“Ah, não? Vai me enganar que ela continua virgem depois do que eu vi entre vocês”, ela retrucou. Ele disse que o que ela tinha visto foi apenas o que aconteceu. Angelina continuava virgem: queria apenas saber como era fazer sexo oral para não decepcionar o futuro marido. Angelina era um caso específico de uma moça de criação religiosa que cresceu acreditando que o certo era se casar virgem com o primeiro namorado, mas, que, como qualquer outra mulher, tinha desejos, vontades, curiosidades que o noivo não concordava em desvendar antes do casamento diante de Deus. Não a condenava por querer conhecer algumas coisas, realizar algumas vontades… Ela desejava aprender algumas coisas para não chegar totalmente inocente na lua de mel e entregar-se para valer ao homem que amava. E ia se casar virgem porque também sonhava em se tornar mulher nas mãos do marido.
Na boca de dentes alvos de quem nunca fumou, um sorriso malicioso. Ricardo olhava para Érica como se admirasse uma atriz de teatro dramático, andando pela cozinha tentando dominar sua emoção. Sentiu vontade de rir ao constatar o óbvio. Ela estava com ciúmes.
Érica negou. Por que teria ciúmes? Ele não era nada seu, nem Angelina… Ou melhor: ele era seu sócio e ela, funcionária deles. Mas que isso: uma moça que se dizia virgem, evangélica e fiel. Ao noivo e a Deus. Ricardo admitia que ela teria todas as razões para recriminá-los, mas sua atitude não era simplesmente de profissional preocupada com a reputação de seu estabelecimento. Ela insistia que não estava com ciúmes. Amava Pedro, iriam se casar, ela estava e era muito feliz…
Ricardo, então, provocou-a. Disse que mesmo conhecendo-a intimamente, sempre respeitou o fato de ela ter decidido se relacionar com um cara como Pedro, que, apesar de não ser o amante com o qual ela sempre sonhou, estava dentro do seu ideal de homem correto para construir uma vida. E mais: sabia que ela tinha ido procurá-lo porque ficou impressionada com a cena que viu e, como seu noivo não a valorizava como fêmea, sentiu desejo de ser dele, Ricardo, novamente. Ela sabia que não ficaria frustrada, porque ele sabia fazer exatamente como ela gostava.
Érica esbofeteou Ricardo. Sentia-se ofendida. Estava furiosa, com a respiração ofegante. Levantou a mão para novo tapa, mas Ricardo a segurou. Como se ela começasse a esmurrá-lo, ele prendeu-a com força contra a parede e, sentindo-a cada vez mais acuada, beijou-a com som e fúria. A união daqueles corpos estava situada no limite mais tênue da luta violenta e das preliminares do sexo que aconteceria em seguida. Bastaram apenas alguns minutos de insistência para que Ricardo vencesse a resistência inicial de Érica, que colocou seu corpo totalmente à sua disposição para que ele conduzisse o que se seguiria, da maneira que bem lhe aprouvesse.
E o que se seguiu foi uma cena de pornografia, aos moldes dos filmes eróticos que geralmente são exibidos nas madrugadas de sábado. Após o encontro de línguas ávidas, Ricardo virou Érica de costas para si e jogou seu corpo sobre a mesa da cozinha, com a barriga e os braços apoiados no mármore frio; por trás dela, levantou sua saia, abaixou a calcinha, apertou com força a carne de sua cintura e deu início ao processo acelerado de penetração que fez com que ela se contorcesse em uma sessão múltipla de orgasmo como havia anos não experimentava.
Tão logo viu o gozo chegar, Érica agarrou-se ao corpo de Ricardo e chorou copiosamente em seu ombro, deixando que suas lágrimas escorressem pelo peito do amante. Em seguida, como se estivesse respondendo a uma programação informatizada, Érica se afastou, dando-lhe as costas com frieza. Ricardo bem que tentou conversar, mas ela não quis saber de papo. Pegou sua bolsa e saiu com a mesma rapidez com que entrou.
Érica não dormiu naquela noite. No dia seguinte, nem bem o sol nasceu, já estava no apartamento de Pedro, que ainda dormia. Ao abrir os olhos, ele estranhou a expressão séria e preocupada da noiva, dizendo-lhe que precisavam ter uma conversa muito séria. Ainda sonolento, o advogado pediu que esquecesse o que havia acontecido na noite anterior. Tiveram uma discussão boba, reconhecia que ela tinha motivos para estar chateada, mas o seu concurso já seria naquele fim de semana, em breve estariam casados, ele se sentiria mais seguro após a entrada no Judiciário e tudo iria se acertar. E ela foi logo confessando que, saindo de seu apartamento, foi ao encontro de Ricardo.
Érica deu-lhe as costas, envergonhada. “Eu estava muito chateada com você, Pedro. Eu tenho desejos, sou mulher… Estou me sentindo rejeitada, como se eu não mais despertasse o seu desejo de homem. Está sendo difícil ficar todo esse tempo sem sentir que você me deseja. Ontem, foi a gota que faltava”
“Érica, o que você foi fazer na casa do Ricardo?”, ele inquiriu.
Érica se virou. “Juro que não fui lá com más intenções. Saí daqui tão mal, tão arrasada, que peguei o carro e fui dirigindo sem rumo. Quando me vi, já estava lá…”
Pedro já havia entendido tudo. Pela primeira vez, parou para refletir em tudo o que estava acontecendo. Érica já havia demonstrado, inúmeras vezes, seus sentimentos e sua certeza de que o desejava para ser seu homem. Naquele momento, deu-se conta de que não bastava apenas marcar a data do casamento e morar sob o mesmo teto: era preciso amá-la como merecia e, acima de tudo, respeitar suas carências e seus desejos de mulher.
Ao se dar conta do que havia ocorrido, Pedro não pronunciou ruído sequer; caminhou até a varanda e agarrou-se mais uma vez ao cigarro para buscar a calma. “Você não vai dizer nada?”, ela quis saber, indignando-se com a falta de reação do noivo diante da evidente traição. Pedro manteve o silêncio, dedicando exclusividade de atenção ao cigarro que fumava.
Érica estava inconformada. “Não vai querer saber como foi, por que eu te traí? Não vai me xingar, me bater, me expulsar da sua vida?”, ela perguntou, sem obter resposta alguma. “Então eu venho aqui e digo que me entreguei a outro homem e você se limita a fumar seu maldito cigarro?” E pediu: “Pedro, não me decepcione mais. Eu só vim aqui lhe contar porque tinha a esperança de que, diante de uma traição, você sairia desse lugar de passividade em que se encontra e tomaria uma atitude de homem”
Pedro atirou o cigarro da janela. “Que atitude você espera de mim?”, ele quis saber, virando-se com raiva e tomando-a pelos braços. “Que eu meta a mão na tua cara, te chame de vagabunda, te pegue pelos braços e te entregue de volta para seu pai?”
“Talvez! Quem sabe, assim, eu sairia dessa história com a sensação de que estava enganada a seu respeito e passaria a acreditar que existe sangue correndo nas suas veias?”
Pedro sentia vontade de fazer exatamente o que Érica parecia desejar. A raiva que estava lhe consumindo após a constatação de que havia sido traído era grande o suficiente para colocar em prática toda a agressividade que trazia em seu sangue. Entretanto, existia a quase certeza de que a maior culpa daquela história era justamente sua. Tinha consciência de que havia praticamente entregue a noiva de bandeja para Ricardo quando deixou de corresponder às suas expectativas acreditando que a aliança no dedo esquerdo e a festa de casamento supririam todas as suas carências. Érica já estava gritando há dias por atenção e ele não soubera ouvir.
Pedro só precisava saber de uma coisa: o que havia levado a procurar outro homem foi a displicência dele ou o sentimento de que ele não era homem para ela? Érica foi sincera.
“Ricardo sabe como ser um bom amante. Mas eu continuo sem enxergar em seu perfil nenhuma característica do homem que eu quero que seja pai dos meus filhos. Só que eu também não posso abrir mão da minha sexualidade para ter ao meu lado um homem fiel e leal que eu sei que nunca vai me trair”
“Érica, escute o que eu vou dizer”, ele pediu, mostrando-se compreensivo e desejando compreensão. “Eu tenho consciência do quanto eu errei com você. Admito que tentei corrigir um erro superando minha insegurança e marcando a data do nosso casamento. Mas acabei cometendo outro erro não sendo o amante que você deseja ter”
Érica limitou-se a encará-lo, como quem está na expectativa para ouvir o seu nome ser sorteado para um grande prêmio.
“É por esse motivo que eu tenho a hombridade de não condená-la pelo seu gesto desesperado. Talvez não seja esta a atitude que você esperava que eu tivesse, mas eu não posso fazer outra coisa a não ser sugerir que passemos uma borracha por cima disso tudo, dando continuidade à decisão que tomamos de nos casar e fazendo de tudo para corrigirmos nossos erros”
Para confirmar com atos o que dizia com palavras, Pedro nem mesmo deixou Érica dar sua opinião e calou-a com um beijo repleto de sofreguidão, enquanto suas mãos afoitas iam apertando o seu corpo para junto do seu. Por sua vez, Érica não sabia o que dizer, o que pensar, como agir.
Com os braços, Pedro conduziu Érica até a cama sem desgrudar os lábios dos seus e, ao deitá-la sobre o colchão, foi desabotoando sua blusa. Em seguida, Érica se viu sendo virada de bruços, enquanto o noivo soltava seu sutiã e punha-se a lamber delicadamente a pele de suas costas, fazendo com que sentisse todos os seus poros se arrepiarem ao simples toque de sua língua.
Para terminar de despi-la, Pedro virou Érica novamente. Frente a frente, ele foi tirando a calça dela, enquanto beijava seus pequeninos seios e ia descendo pela sua barriga, até estacionar o rosto no aglomerado de pêlos negros bem desenhados. Após uma troca de olhares bem significativos, Pedro imaginou que Érica fosse uma manga bem suculenta e, literalmente, lambuzou-se com a fruta, sugando seu sumo até o caroço.
Naquele momento, Érica sentiu-se mulher nas mãos de Pedro, como talvez nunca tivesse sentido em todos os anos de relacionamento, sendo explorada com propriedade em todos os seus pontos mais sensíveis e com a sensação de que seria possuída por um homem que demonstrava ser um macho preparado para satisfazer seus instintos de fêmea.
Pela primeira vez, Pedro penetrou Érica sem preservativo.