Aquele dos pecados da Capital

*conto publicado originalmente na revista Meia Um. Confira o arquivo digital aqui

Naquela segunda-feira, Eunice levantou da cama antes mesmo do sol nascer. Despertou o marido, Agenor, que insistia em roncar feito um porco enrolado no cobertor, e foi para a cozinha preparar o café. Enquanto a água fervia, tratou de acordar as três filhas e arrumá-las para a escola. Correu para cozinha e arrumou a marmita do marido enquanto coava o pó de café. Após liberar a família, Eunice se arrumou rapidamente e seguiu para a parada de ônibus. Eram seis e meia da manhã. Ainda enfrentaria uma hora de viagem até o Plano Piloto e um dia de muito trabalho como empregada doméstica. Entretanto, naquela parada de ônibus lotada de Samambaia, nem sinal de qualquer transporte. Um estudante com o smartphone na mão avisou: os motoristas e cobradores do transporte público fizeram uma paralisação parcial de 30% da frota de veículos.

 

Enquanto caminhava para a estação do metrô, Eunice foi pensando no quanto a vida era injusta. “Já que tinha que ser pobre, como eu queria ter nascido inteligente ou pelo menos bonita para ter arrumado um marido melhor…”

Sua prima Lurdinha não teve estudos, mas era formosa, loira, boazuda, e conseguiu casar com um professor universitário que lhe dava vida de princesa. “Ah, a Lurdinha… Essa sim tem uma vida que pediu a Deus!” Era bem cuidada, usava roupa de boutique, fazia o cabelo e as unhas uma vez por semana e estampava nos olhos a sua felicidade conjugal… E o melhor: morava num bom apartamento no Cruzeiro, não andava de ônibus e seu trabalho era de recepcionista de um hotel de luxo. Esse sim era um emprego que Eunice gostaria de ter. E não passar o dia limpando sujeira da casa dos outros. Como tinha inveja da prima!

Eram dez da manhã quando Eunice chegou ao trabalho, no final da Asa Norte. Naquele horário, já deveria estar com o serviço adiantado. Antes de começar a preparar o almoço, limpava a cozinha, colocava roupas para lavar e faxinava parte do apartamento. Naquele dia, todo o processo atrasaria. Pelo menos os patrões, seu Jairo e dona Irene, já haviam saído para seus respectivos trabalhos. O problema era o filho do casal. Àquela hora, Luis Felipe ainda estava na cama. E ficaria por ali até bem depois do almoço. O rapaz tinha dezenove anos – típico jovem mimado de classe média alta brasiliense – e não estudava.

“Pô, eu mereço um pouco de descanso e diversão depois de dedicar quase 90% da minha vida a um banco de escola”, ele argumentava, entre uma saída e outra.

A verdade é que Luis Felipe nem mesmo sabia que carreira gostaria de seguir. Qualquer coisa que passasse pela sua cabeça trazia consigo uma carga pesada de chateações. Ideal era ganhar muito dinheiro com pouco esforço. Graças a um bom relacionamento da família com um deputado distrital, estava nomeado com um cargo até razoável no governo. Recebia em torno de R$ 1,5 mil por mês (quase que o dobro do salário de Eunice), mas só aparecia mesmo no local de trabalho duas horas por dia para assinar a folha de ponto. E mesmo assim ainda reclamava da burocracia brasileira, que exigia do cidadão certas obrigações muito provincianas.

Naquela segunda-feira, Luis Felipe saiu do quarto por volta do meio-dia e meia. E resmungando, irritado porque a empregada estava fazendo muito barulho. Havia chegado quase de manhã em casa, após uma boa noitada com os amigos em uma festa privada numa chácara no Lago Oeste. A cabeça estava pesada, precisava de um tipo de sossego que, não encontrando em seu próprio lar, teria que buscar no clube, só de sunga, tomando um bom drinque na beira da piscina.

Deitado na confortável rede da varanda, Luís Felipe pegou o seu I-Phone e chamou o táxi que o levaria ao clube. Não estava a fim de dirigir. Dez minutos depois, o carro já estava na entrada do seu bloco. Do lado de fora, o motorista, um homem negro de óculos de aviador e colar de prata aparecendo da camisa de botões abertos, fumava um cigarro, enquanto do carro vinha o som animado de Zeca Pagodinho.

“Vamos lá, meu camarada. Toca pro Iate Clube e pode deixar o som rolando que eu tou na onda do deixa-vida-me-levar…”

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Para uma segunda-feira, Kleber estava muito bem-humorado. Tinha uma razão: a ausência de ônibus circulando fazia os taxistas faturarem bastante. Além disso, estreava seu carro novo, um belo possante que havia acabado de tirar da concessionária. Não era nenhum carro importado, mas tinha seus méritos: popular zero quilômetro, com ar-condicionado, trio elétrico, direção hidráulica e DVD portátil. Depois de dez anos de muita ralação pelas ruas do Distrito Federal, muito passageiro chato e muita privação na vida pessoal, o dinheiro poupado finalmente se revertia na realização de seu sonho.

Após o deslocamento de aproximadamente dez quilômetros da 215 Norte até o Iate Clube, Kleber retornou ao Plano Piloto passando pela Esplanada dos Ministérios. E a sorte parecia estar ao seu lado: na altura do Ministério da Justiça, um homem trajando terno e gravata estava parado ao lado de um carro com o pneu furado, enquanto seu chofer procedia o conserto.

“Segue para o setor hoteleiro”, ordenou o novo passageiro, aparentemente apressado e impaciente, falando ao celular com alguém que o aguardava ainda mais impaciente do outro lado. Pelo boton que aquele homem carregava no paletó, Kleber deduziu que se tratava de um deputado. Para lucro do taxista e prejuízo do passageiro sisudo, o trânsito na Esplanada dos Ministérios estava tumultuado naquela tarde. Os carros andavam a passos lentos, parando a cada instante. Numa dessas paradas, em frente à Rodoviária do Plano Piloto, Kleber freou, mas o carro que o seguia não acompanhou o movimento, chocando-se em sua traseira.

Kleber soltou um palavrão e desceu do carro, sem se importar com o passageiro que conduzia. No veículo de trás, ainda pôde ver a motorista falando ao celular. Era uma mulher de aproximadamente cinquenta anos, muito bem vestida, de óculos escuros enormes e lenço de seda envolvendo o pescoço. Ao ver o estrago provocado na traseira de seu carro novo, o taxista não se controlou. O sangue subiu e ele começou a brigar com a mulher que havia provocado a colisão. Estava visivelmente transtornado, o rosto vermelho feito pimentão, as mãos tremendo. De sua boca, saíam palavrões impublicáveis.

A mulher desceu do carro e, cheia de classe em cima do salto altíssimo, diante do tom agressivo e ofensivo daquele homem, começou a responder com autoridade e altivez. Ambos achavam-se no direito da posição de vítima e ninguém queria assumir o prejuízo do outro.

“O senhor, por favor, abaixe o tom de voz que eu não sou surda”, ela foi logo exigindo.

“Não mesmo, porque se fosse surda a madame não estaria falando ao celular enquanto dirigia. Mas pelo visto é cega e muito ruim de roda”

“O senhor não sabe com quem está falando!”

Silvia Junqueira era uma dessas figuras conhecidas na alta sociedade brasiliense. Era ex-mulher de um ex-ministro da época do ex-presidente do século passado. Teve seu apogeu no período em que Brasília ainda era só o centro da nobreza tupiniquim e, sim, já foi considerada uma locomotiva do high society brasiliense. Mas atualmente vivia dos recortes de jornais antigos e das inúmeras intervenções cirúrgicas de caráter estético a que já havia se submetido em nome da vaidade. Entretanto, ainda se sentia como se estivesse no crème de la crème da Côrte. Altiva, esnobe, pedante, olhava os outros sempre por cima. Soberba era seu nome.

Kleber já estava furioso por causa do prejuízo em seu carro e ficou mais ainda quando aquela mulher esnobe e preconceituosa o ofendeu. A essa altura, o trânsito que, já estava lento, parou totalmente. Enquanto os dois motoristas envolvidos na batida discutiam, os condutores dos outros veículos começaram a buzinar e vociferar: que eles se dirigissem ao acostamento para que a passagem fosse liberada.

O caos estava instalado. Em alguns minutos, a polícia militar apareceu para colocar ordem. Alheio às argumentações descompensadas dos dois condutores envolvidos na colisão, o parlamentar identificou-se e disse que estava envolvido inocentemente em uma confusão que estava impedindo-o de estar em uma reunião importantíssima com outros pares. Constrangido, o policial pediu desculpas ao parlamentar e prontificou-se a conduzi-lo até seu destino enquanto o colega resolveria o acidente de trânsito. Entrou na viatura sob protestos dos outros condutores, principalmente Kleber, que não receberia um centavo pela sua desastrosa corrida. E tudo indicava que ele ainda teria muita dor de cabeça para garantir o conserto do seu carro.

********

Apesar do inconveniente ocorrido no táxi que o conduziria até seu destino, o deputado federal Álvaro Pimenta conseguiu chegar à reunião com menos de uma hora de atraso ao horário previsto. Na verdade, tratava-se de um encontro secreto com um importante membro do governo do seu estado de origem em uma suíte daquele grande complexo hoteleiro de luxo no início da Asa Sul. O homem – um senhor gordo de meia-idade – já estava esperando-o, impaciente, com um cigarro preso na boca e um copo de uísque na mão. Licurgo entregou, então, ao deputado uma mala cheia de dólares. Era o pagamento por parte do governo de seu estado de origem por ter votado a favor de um projeto do interesse do partido.

“Está tudo aqui”, disse Pimenta, cheirando as cédulas verdinhas, com os olhos brilhando em forma de cifras. “Avise ao governador que mês que vem haverá reajuste de 10%, ok?”

Licurgo sentiu-se aliviado ao se livrar de Álvaro. Tinha cumprido a missão que o levara a Brasília. Resolvido seu único compromisso, restava-lhe agora continuar usufruindo o que, na opinião dele, a cidade tinha de melhor: a gastronomia. Do popular ao sofisticado, os cardápios brasilienses não deixavam a desejar.

O roteiro gastronômico iniciou cedo. De táxi, Licurgo seguiu para a Asa Sul, onde pôs fim ao seu jejum – porque amendoim e barrinha de cereal oferecido pelo catering dos vôos não contam – numa requintada padaria. Enquanto lia o caderno de política, degustou diversos tipos de pães doces e salgados, com recheios diversos como manteiga, requeijão, queijo, presunto, patês alternados e ovos com bacon. Na hora do almoço, a dúvida ficou entre churrascaria e cantina, mas foi convencido por um amigo a se render à famosa buchada de bode preparada pelos nordestinos na feira do Núcleo Bandeirante. De sobremesa, lambeu os beiços com o robusto petit gateau de uma famosa lanchonete da cidade. E ainda encontrou espaço no estômago para comer dois pasteis de queijo na rodoviária, com caldo de cana.

Para o jantar, Licurgo não pensou duas vezes: o rodízio de churrasco era a melhor opção. Foi caminhando até a churrascaria gaúcha estrategicamente instalada ao lado do seu hotel. Sentou-se em uma mesa sozinho e iniciou o seu ritual de glutonaria: comeu massa e uns quitutes japoneses e, para arrematar, não rejeitou nenhum tipo de carne suculenta que passava pela sua frente, com aquele odor apetitoso.

“Pode me servir de tudo: coraçãozinho, frango, picanha, maminha…”

Com cinquenta e seis anos, Licurgo era obeso, consumidor de dois maços de cigarros diários, apreciador do bom uísque e totalmente avesso a qualquer prática esportiva. Hipertenso, diabético e portador de outras bombas relógio tiquetaqueando dentro do coração. Trabalhando com uma política sempre em crise, então, o infarto era algo iminente.

“Por favor, alguém me ajude!”, gritou a jovem recepcionista ao ver aquele homem enorme de gordo caído na entrada do hotel.

Lurdinha estava assustada com a cena que havia acabado de presenciar. No chão, ao lado do corpo de Licurgo, gorfos de comida. Por sorte, havia um médico entre os hóspedes do hotel e o socorro foi imediato. Em instantes, a ambulância chegou, levando-o para o hospital.

Enquanto rezava para que o pobre homem não abotoasse o paletó de madeira, ligou para casa. “Estou traumatizada, meu benzinho. Não sei por que, mas senti uma vontade enorme de ouvir a voz do meu maridinho”

Por telefone, de casa, no Cruzeiro, Guilherme tranquilizou a esposa. “Meu amor, o plantão está só começando. Há ainda uma noite inteira de trabalho e esse episódio precisa ser esquecido. Fique bem. Estou com saudades, benzinho”

Após encerrar a ligação, Guilherme retornou ao computador. Já havia concluído o trabalho acadêmico, acessou a internet.

Guilherme tinha um bom casamento com Lurdinha. Era apaixonado pela esposa e sentia-se realizado sexualmente com ela. Tinha ao seu lado uma mulher bonita, carinhosa, cheirosa e até certo ponto safada. Transavam diariamente, às vezes até mais de uma vez por dia. Entretanto, aquele homem de trinta e poucos anos, bonito que só, sentia falta de algo que nenhuma mulher poderia lhe dar.

Era inconfessável, mas Guilherme sentia atração por outros homens. O que guardava para si era muito forte e precisava extravasar. E a maneira que encontrava para não se sufocar com seu desejo era justamente aquele: buscando prazer na internet todas as noites, enquanto a esposa trabalhava. Mas não se considerava infiel. Sua safadeza resumia-se exclusivamente ao mundo virtual. Na internet, permitia-se tudo: sem revelar sua verdadeira identidade, despia-se de qualquer pudor e entregava-se ao mais extremo prazer possível por meio de uma câmera acoplada ao computador. Adorava a sensação de seduzir, provocar, dizer obscenidades, acariciar seu corpo visualizando um homem desconhecido que, do outro lado da tela, também se oferecia ao voyeurismo.

Após a satisfação física e emocional, adormecia feliz. E pela manhã, quando Lurdinha chegava em casa, Guilherme a recebia com intensa paixão. Era um marido sem defeitos, afinal.

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Na manhã seguinte, enquanto Lurdinha se debruçava em sua ilusão, na mesma hora, Eunice saía para trabalhar e seguia viagem, de ônibus, em pé. Ao seu lado, estava Kleber que, sem carro, ia ao encontro de Silvia Junqueira na delegacia onde estava presa por desacato à autoridade. No caminho, lia no jornal popular a notícia de que, antes de morrer, o assessor político Licurgo Castanheira havia confessado a entrega de mensalão para o deputado Álvaro Pimenta. Já no apartamento da Asa Norte em que Eunice trabalhava, Luís Felipe não acordaria tão cedo – havia passado a madrugada trocando obscenidades virtuais com um homem que se identificara apenas como Professor Casado.

Assim, um novo dia começava. Pronto para o deleite de novos pecados na capital.

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