Geralmente, os autores ja escrevem as sinopses de suas novelas com comeco, meio e fim ja planejados. Eu sou assim. Porque escrever uma sinopse e’ como escrever um livro. Admiro Gilberto Braga porque ele consegue ser fiel a sua sinopse mesmo novela sendo obra aberta. O final de Insensato Coracao, comparado com o seu comeco, mostra que ja estava definido que Wanda mataria Norma por seu louco amor dedicado ao filho Leo.
Wanda nunca enxergou a falha de carater de Leo. Sempre protegeu o seu bebezinho do mundo injusto. Fato que ela mataria aquela que ameacou destruir sua vida: Norma. Dinheiro nenhum do mundo a faria permitir que aquela mulher vingativa destruisse seu filho mais que amado. Era de Wanda o insensato coracao que deu titulo a novela. E Gilberto Braga somente explicou isso no final. O que ja estava claro na primeira cena. Quem nao lembra, reveja o primeiro bloco.
Pedro e Marina nao emplacaram porque o foco nunca foi eles. Protagonistas de fato foram Leo, Wanda e Norma. Um homem mau carater amado loucamente por dois insensatos coracoes. Gilberto sempre repetiu que a espinha dorsal dessa novela era a relacao familiar. E eu me lembro que ja se falava que haveria um “quem matou Norma?” antes mesmo da novela estrear. E so revendo o primeiro capitulo hoje que eu me toquei de que tudo que se desenrolou agora sempre fez sentido. O telespectador comum nao compreende justamente por ser uma obra aberta. As interpretações geralmente comprometem a sinopse original.
Por isso admiro o Gilberto (apesar de achar que ele se perdeu nessa novela pelo excesso de personagens). A Gloria Perez, por exemplo, leva em conta as interpretacoes. Marcio Garcia nao rendeu e seu Bahuan perdeu espaco pro Raj do Rodrigo Lombardi, que tinha sua morte prevista na sinopse original de Caminho das Indias. Ja o Manoel Carlos se pauta pelo que ouve dos telespectadores nas padarias e farmacias do Leblon. Por isso, nao matou a Eduarda como previu na sinopse original de Por Amor. E deixou que a Helena de Viver a Vida virasse coadjuvante em detrimento do drama da cadeirante Luciana.
O unico autor que eu acredito seguir a linha Gilberto Braga de fidelidade as sinopses e’ Silvio de Abreu. Suas tramas sao tão bem amarradas do inicio ao fim quanto às do colega “da elite carioca”. Desde o inicio de Passione, Abreu ja sabia que Clara mataria Saulo. E ha quem diga que a morte da mocinha Diana tambem ja estava na sinopse. No último capítulo, ficou claro que Clara tinha motivos para ser como era. Houve quem pedisse pra ela ficar boazinha e ser feliz ao lado de Totó, mas isso complicaria toda a estrutura da trama que criou. Da mesma forma, houve quem criticasse a morte da Norma. Eu mesmo jurava que ela nao tivesse morrido!!!! Como assim, matar a protagonista?
Nem Silvio nem Gilberto atenderam aos apelos populares. Atitudes louváveis, porque sao arriscadas. Novela nao e’ como um filme e, por ser obra aberta, o público rejeita certos desfechos. Se Maya terminasse a novela Caminho das Indias com Bahuan, o publico perdoaria Gloria Perez? E se Eduarda tivesse morrido em Por Amor, como seria quando Maneco fosse caminhar pelo Leblon?
Gilberto Braga mais uma vez pagou pra ver. Pena que os últimos capítulos foram corridos demais para que ele pudesse deixar mais claro o seu intuito ao escolher Wanda, desde o início da trama, para ser a assassina de Norma - a protagonista predestinada a morrer no final da novela.
Tags: gabriel braga nunes, gilberto braga, glória pires, insensato coração, natalia do vale, quem matou norma, sinopse original, wanda
agosto 21, 2011 às 2:26 pm |
Muito bom seu ponto de vista! Parabéns!
agosto 21, 2011 às 2:56 pm |
Excelente texto! Parabéns!
agosto 21, 2011 às 3:19 pm |
Essa cena da briga, me arrepiou, infelizmente não vi o primeiro episódio e nem o ultimo. Acho que por isso não “sofri” tanto.
agosto 21, 2011 às 3:28 pm |
Otima analise. Penso o mesmo. A novela explorou, como todas, as relações familiares, mas bem baseada na psicanalise, mesmo que isso tenha sido acidental. A relação pai, mãe, filho foi perfeita e so ai da para entender a abertura e a música.
Quase todo mundo conhece a história do complexo de edipo. Para antes dele e menos conhecido, há o totem e tabu, tambem conceito de Freud. Ele fala sobre os instintos que temos, toda a história de edipo e completa: o pai real que passa para o filho a lei, a lei que faz a castracao
agosto 21, 2011 às 3:36 pm |
Continuando!
O pai, Raul, percebeu desde o inicio, no primeiro capítulo, quando mostra os pequenos, que Léo tinha uma tendência destrutiva. A mãe, por algum outro motivo, estava cega sobre isso e preferiu proteger o filho da lei do pai. Ela tambem nao seguia a moralidade social, traiu o marido e, ao contrário dele, tinha preocupações fúteis e menos escrúpulo.
O outro filho nem nos interessa tanto, ele interiorizou tudo certinho.
Léo foi retratado como o psicopata conceituado pela psiquiatria: frio, calculista, ambicioso, amoral. Mas ele tinha os tons psicanaliticos tambem: sentia grande inveja do irmão e uma dependência com a mãe, sua salvadora.
O fim , como vimos, foi perfeito. Wanda nao era racional como o filho e, após o crime e sua prisão, parece ter surtado. Léo, como o psicopata descrito na ciência, nao aprendeu com todo o contexto e permaneceu com o discurso que o pai o odiava. Nao sabia o que era o amor.
A morte de Léo e a prisão dos algozes da trama tambem fala do conceito de defesa social: os vilões sociais presos ou mortos, enquanto as pessoas de bem podem, pelo menos por enquanto, viver em paz.
Se isso é o certo ou o errado, eu nao sei, mas tem um efeito catartico no telespectador!
agosto 21, 2011 às 3:42 pm |
Ótimo texto!! Não lembrava do inicio da novela. Agora faz todo sentido do mundo. Eu gostei muito de Insensato Coração! Por favor, na sua novela, não mate o personagem inspirado em mim. O deixe bem bandido, do jeito que eu gosto, e o mande morar em Paris. Ricaço.
agosto 22, 2011 às 4:22 am |
Texto maravilhoso!! agora tudo faz mais sentido!