Aquele da nudez no cinema nacional

A 41ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro termina hoje, colocando fim à temporada 2008 das mais importantes mostras cinematográficas do País. Este foi um ano atípico para o mercado, com uma forte produção de bons filmes se digladiando por espaços nas salas de cinema e pelos tão desejados prêmios. Além disso, o ano de 2008 foi marcado pela polêmica a respeito da nudez nos filmes brasileiros, levantada pelo ator Pedro Cardoso no Festival do Rio. O ator fez um discurso anti-nudez no cinema e na TV, dizendo que “a nudez impede a comédia e o próprio ato de representar. Quando estou nu, sou sempre eu a estar nu, e nunca o personagem.”.

A polêmica percorreu o ano, de festival em festival, fazendo com que atores e diretores freqüentemente respondessem sobre o tema nas entrevistas. Tenho algumas observações prós e contras. Admirador que sou do cinema nacional e roteirista aspirante, acredito que a nudez seja necessária em alguns momentos e dispensáveis em outros. Infelizmente, o ator nu ainda é tratado como um forte atrativo às produções. Há, inclusive, à venda, um livro intitulado Guia da Nudez no Cinema Nacional, dando dicas de quando e como soa inseridos os nus frontais na cinematografia brasileira. Pornochanchadas à parte, a retomada do cinema nacional tem privilegiado muitos pênis, vaginas e seios. É como eu disse: uns necessários, outros nem tanto.

Vamos aos exemplos. O filme A concepção, do premiado diretor José Eduardo Belmonte, apresenta um festival de nudismo e nenhum deles poderia ser abafado justamente para não comprometer a estrutura do roteiro, que fala sobre um grupo de jovens que criam suas próprias regras de conduta. Já nos seus outros dois filmes seguintes, a nudez não existe. Seria altamente comercial, por exemplo, que ele colocasse, em Se nada mais der certo, o galã Cauã Reymond nu em cena e não o fez porque não tinha razão, seria gratuito. O mesmo Cauã, entretanto, protagonizou uma bem colocada cena de nudez não-frontal em Falsa Loura, de Carlos Reichenbach – mesmo filme em que a atriz Rosanne Mulholand, intérprete da protagonista,  ficou nua em pêlo para justificar o título do filme. Matheus Nachtergaele, que estreou como diretor em A festa da menina morta, não priorizou nudez em seu filme, mas já exibiu sua genitália duas vezes no cinema: a primeira vez em A concepção e a segunda em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Neste último filme, sua nudez foi totalmente gratuita, num banho de rio com o ator Caio Blat. Este, por sua vez, está se tornando campeão de aparições nuas: além de em Baixio, seu pênis foi exibido com detalhes em Cama de Gato – na famosa cena de estupro – e em Batismo de Sangue – durante uma cena de tortura nos porões da ditadura. No filme Primo Basílio, de Daniel Filho, os protagonistas Fábio Assunção e Débora Falabella também ficam completamente nus em um cena extremamente delicada. Reynaldo Gianechinni, que completou um triângulo amoroso com o casal, escapou da nudez frontal, mas foi pego por ela no novo filme em que atua, “Entre Lençóis”, ao lado de Paola Oliveira. Diante dessas polêmicas, as cenas em que o casal exibe suas genitálias foram cortadas. 

 Cláudia Abreu – que também ficou nua pela primeira vez em cena neste ano, no filme Os desafinados, de Walter Salles Jr - foi uma das únicas a endossar publicamente o manifesto de Pedro Cardoso. Em seu manifesto, o ator acredita que “é sobre as atrizes que a opressão da pornografia é exercida com maior violência” e afirmou que “é freqüente que cineastas de primeiro filme exibam a amigos, em sessões privê, cenas ousadas que conseguiram arrancar de determinada atriz”. Cardoso afirmou que o fato de namorar uma atriz fez com que ele se preocupasse ainda mais com a exposição de atores à nudez. A namorada em questão seria Graziella Moretto, que atua no filme Feliz Natal, primeiro longa-metragem dirigido por Selton Mello – e protagoniza uma cena de nu frontal. “Penso que se uma cena de nudez estiver inserida em um contexto legítimo, como expressão genuinamente artística, sem traço algum de banalização, me parece algo bastante natural e belo”, disse Selton Mello, que, ao contrário de vários colegas, nunca ficou nu em cena.

O personagem de Matheus Nachtergaele, no filme Baixio das Bestas,  em determinada cena, diz uma fala que resume tudo: “O bom do cinema é que, no cinema, tu pode fazer o que quiser”

Uma curiosidade: o primeiro nu frontal do cinema brasileiro foi feito pela atriz Norma Bengell. Em 1962, aos 27 anos, ela escandalizou a sociedade da época ao aparecer completamente sem roupa no filme Os Cafajestes, de Ruy Guerra.

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Um comentário sobre “Aquele da nudez no cinema nacional

  1. Vagner Cecilio Pereira disse:

    Por mais que eu goste do Pedro Cardoso, o mesmo foi muitissimo infeliz no seu “discurso”.
    Afinal, o que ha de tão “pecaminoso” na nudez?
    É apenas um corpo,… nada mais.
    Acho que todos possuem um corpo… ou existem seres Anti-matéria por ae??
    Qualé??
    Censura agora?
    E daí se querem mostrar penis e vaginas nos filmes??
    A ARTE É LIVRE!
    Acredito que moralismo só gera mais imoralidade.
    Grato pela oportunidade.

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