“Uma década qualquer, uma época que deve ser esquecida. Um tempo perdido. Assim alguns definem os anos 80, que tiveram início com um Brasil que ainda sofria as conseqüências do golpe militar de 64. A crise econômica e as dificuldades do militarismo agravaram-se no final da década anterior, quando, para conseguir o apoio da sociedade, o então presidente Ernesto Geisel anunciou uma “distensão lenta, gradual e segura” do regime autoritário em direção à democracia. Entretanto, prisões de líderes sindicais da região do ABC Paulista e atentados terroristas no Rio de Janeiro revelavam as grandes dificuldades da chamada abertura política, já no governo João Figueiredo. Ao mesmo tempo, começava a se formar um movimento no Congresso Nacional em favor da aprovação da emenda constitucional que restabelecia a eleição direta para a Presidência da República. A campanha das Diretas Já se espalhava em grandes comícios, passeatas e manifestações por todo o País.
Mas Brasília, mesmo sendo o centro dessa discussão, não se resumia apenas às questões políticas. Aliás, engana-se quem pensa que a capital federal é um local habitado apenas por políticos, diplomatas e funcionários públicos. Brasília é uma cidade marcada pelo sonho e, principalmente, pela ousadia. Milhares de pessoas comuns, cidadãos brasileiros, desembarcaram na cidade em busca de uma vida melhor. Além dos candangos que ergueram a nova cidade, gente de todo o tipo queria encontrar na nova capital do País uma alternativa de vida, enquanto outros que fixaram residência por imposição passaram a captar na cidade algo que justificasse a sua existência. Essas pessoas, marcadas pela diversidade cultural e social, fizeram de Brasília uma cidade com vida própria, que podia até depender do fator político-administrativo, mas que, aos poucos, foi se tornando independente. Nesta cidade, a década de 80 significou também uma grande transformação cultural que alcançou todos os cantos do Brasil e algumas partes do mundo.
Aos vinte e poucos anos de vida, Brasília vivenciava sua fase mais bonita: a juventude. Nesse contexto, surge a história de jovens que não viram a nova capital ser construída, que não viveram os dias difíceis que caracterizaram o Regime Militar nem a época de libertação marcada pelo movimento hippie e pela moda das discotecas. Mas acompanharam o crescimento da nova capital enquanto brincavam debaixo dos blocos residenciais; à medida que se preparavam para o já concorrido vestibular da Universidade de Brasília (UnB) nos mais conceituados colégios da cidade, esses jovens vivenciavam as novidades tecnológicas que eram apresentadas à sociedade de consumo e as tentativas de novos planos econômicos que marcaram a década. Na esfera cultural, admiravam musas como Xuxa e Luiza Brunet e atletas como Nelson Piquet, Ayrton Senna e Zico; ouviam os internacionais Madonna e Michael Jackson e começavam a curtir o som de bandas nacionais, como Barão Vermelho, Titãs e Kid Abelha – sem falar naqueles que surgiram justamente em Brasília, paralelamente ao boom do movimento punk: Os Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Legião Urbana e Capital Inicial. Já outros, respirando constantemente a atmosfera política do Planalto Central, tomavam para si a responsabilidade de fazer alguma coisa pela pátria, a exemplo dos seus pais nos anos de chumbo.
Sou desta primeira geração nascida em Brasília. Meu nome é Gabriel Soares Raposo, nasci no dia 10 de novembro de 1966, filho do coronel Jorge Luís Raposo com a dona de casa Ester Soares Raposo. Tenho uma irmã, Isabela Soares Raposo, gêmea, bivitelina – portanto, não-idêntica, é bom explicar. Com minha irmã, sempre dividi todos os momentos da minha vida, sejam eles bons ou ruins, inclusive o ato saudosista e até mesmo pedagógico de reviver essa época tão especial – que, sem o apoio do seu até então secreto diário, seria impossível. Conto também com a fundamental assessoria da minha amiga jornalista Solange Gontijo, que me ajudou a levantar todos os principais acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais que eu transcrevo aqui para ilustrar esta história.
Espero que gostem e, desde já, peço desculpas pelo modo transparente e visceral com o qual eu exponho – com as devidas autorizações, é bom que fique claro – a intimidade de algumas pessoas. Não sou jornalista, nem escritor, nem historiador, mas estou aqui para contar a história de uma geração marcada pela transformação política, econômica e cultural de um país. Esta geração pode ser chamada de filhos da revolução. “
Quer saber mais?
Aguarde!
Em breve, “OS FILHOS DA REVOLUÇÃO”, de Patrick Selvatti…
Tags: Brasília, rock nacional, capital inicial, candangos, anos 80, filhos da revolução, geração coca cola, tempo perdido, legião urbana, paralamas do sucesso, xuxa, luiza brunet, madonna, michael jackson, diretas já, plebe rude
Setembro 12, 2008 às 8:35 pm |
Fala Patrick,
Estou aqui agora para entrar no time dos D’s. Hehe
Abraçao meu broder, ficou criativo o Diploma à Vista!
Setembro 13, 2008 às 1:44 pm |
Uau!