Aquele do copia-e-cola

Dizem que na natureza nada se cria, tudo se transforma. Na televisão também é assim. As novelas, produto brasileiro mais consumido no exterior, vieram de Cuba – país que, por ironia, by the way, hoje idolatra as novelas brasileiras. Mas por aqui também há espaço para novelas importadas, já que, com exceção da Globo, que atire a primeira pedra a emissora que nunca exibiu uma novela mexicana (ou argentina, venezuelana, colombiana, que seja).

Em compensação, o Brasil talvez seja o país que mais copia programas de sucesso ao longo do mundo. De 2000 para cá, o que mais temos visto por aqui é cópia de programas estrangeiros. Um dos precursores – e o mais bem-sucedido – foi o “Big Brother”, que estreou em janeiro de 2002. Naquele tempo, já era moda uma emissora de tevê daqui copiar a outra. Tanto que o SBT – mestre em plagiar as concorrentes – já havia copiado o formato antes mesmo de a primeira edição do BBB ir ao ar, colocando no ar, de surpresa, o seu “Casa dos Artistas”. Tempos depois, a Record lançou seu formato de anônimos confinados numa casa, com o sugestivo nome de “Sem Saída”.

Essa é, com certeza, a década dos reallity shows. Na Globo, o “Fama”, programa que revelava talentos na música; no SBT, o “Popstar” e, em seguida, o “Ídolos” – versão tupiniquim do estrondoso sucesso norte-americano “American Idol” - sendo que este último agora pertence a Record. Na emissora da Igreja Universal, por sua vez, o maior sucesso é “O Aprendiz”, mas há espaço também para o “Troca de Família” e o “Simple Life” - todos com formatos importado do estrangeiro.

Nada contra essa importação de produtos televisivos, hein? Até porque, se não fosse isso, nunca saberíamos o que seria a emoção de um Big Brother, por exemplo (e aqui incluo os que não gostam do programa). O problema é que o sucesso dos reallity shows acirrou ainda mais a guerra pela audiência entre as emissoras brasileiras. E teve início uma perigosa festa de copia-e-cola. O último exemplo eu acabei de conferir nesta manhã. A Record copiou des-ca-ra-da-men-te o programa “Dança dos Famosos”, da Globo. O “Domingão do Faustão” apresentou, no último domingo, a final da quarta edição do seu quadro de maior sucesso, consagrando a atriz Christiane Torloni como campeã (aliás, merecidamente). E hoje, no “Hoje em Dia”, a Record lançou seu concurso de dança, colocando quatro famosos (oi?) dançando três ritmos com quatro coreógrafos (who?). No salão, o ator pornô Alexandre Frota, Alexandre Barillari, a segunda loira do Tchan Sheila Mello e Maria Cândida. Como se não bastasse a cópia descarada, no júri, Jayme Arôxa e Maria Pia Finóchio, que domingo sim domingo não estavam lá, dando notas para os candidatos globais.

Eu adoro assistir televisão. Sério. Ultimamente, porém, confesso, tem me dado ânsia. Essa guerra de audiência já está atingindo limites inaceitáveis. Um bom exemplo disso foi a extensa e cansativa cobertura do caso Nardoni. A televisão, que foi criada como um meio de comunicação inovador, com o objetivo de levar informação e entretenimento aos telespectadores, está baixando assustadoramente o nível. Em tempos de Q de Qualidade e de Queda de Audiência, definitivamente, a Rede Globo ainda dá um banho no quesito originalidade (bom, toda regra há exceção, e, neste caso, cabe a Ana Maria Braga o Troféu Baixaria na Vênus Platinada). Dou maior apoio a Record pela sua erguida nos últimos anos, mas acredito que o caminho para o sucesso deve ser trilhado de uma forma mais sadia. Trazer profissionais de qualidade que não estão sendo bem aproveitados na outra emissora (o Brito Jr., por exemplo, teve seu salário aumentado de R$ 70 mil, na Globo, para R$ 300 mil, na Record) é mais do que aceitável: com a abertura de mercado, as oportunidades para novos profissionais são muito maiores. Eu mesmo participei de um concurso de novos autores de novela na Record, sendo que na Globo essa possibilidade ainda é muito remota. Entretanto, se continuar apelando desta maneira, a emissora do Edir Macedo talvez se perca pelo caminhos e precise da ajuda de muitos mutantes para se salvar. Afinal, credibilidade é mais sinônimo de qualidade do que audiência. Não é?

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2 Respostas para “Aquele do copia-e-cola”

  1. robertocordeiro46 Disse:

    Patrick, embora não seja do seu tempo, faço a citação de Abelardo Barbosa: nesse mundo nada se cria, tudo se copia. E o show deve continuar…

  2. Elton Pacheco Disse:

    Vamos atualizar, né?

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