Aquele dos negros (ou 120 anos da Lei Áurea)
Há exatos 120 anos, a Princesa Isabel assinava a Lei Áurea, abolindo a escravidão no Brasil. Por todo o país, a data está sendo comemorada. Aqui em Brasília, muitos órgãos públicos promovem solenidades alusivas e… dá-lhe discursos! De qualquer forma, sempre é válido relembrar datas importantes de nossa história. Entretanto, no movimento negro, existem correntes que não vêem motivos para comemorar essa data (13 de maio). Segundo o ministro Edson Santos, da Igualdade Racial, o processo iniciado há mais de cem anos ainda não terminou. “Foi uma luta das mais belas ocorridas no Brasil, mas não teve medidas posteriores de cidadania para a população negra. O negro deixou a senzala para morar na favela”, diz.
Na década de 90, Alexandre Pires (a negritude é só uma coincidência) cantava: “O que é que eu vou fazer com essa tal liberdade?”. E a sensação é mais ou menos esta. A Lei Áurea deu liberdade aos negros escravos, mas não lhes deu nenhuma solução para o que fazer com ela. Muitos, inclusive, tão acostumados a andar descalços, rejeitaram os sapatos. Mais que isso: os negros recém-libertos não sabiam como garantir seu sustento. No fim das contas, os negros deixaram de ser escravos, mas não deixaram as cozinhas e as lavouras.
Dois séculos depois, o cenário que vemos não é muito diferente. A população negra no Brasil permanece, em sua maioria, habitando favelas e periferias. No ambiente de trabalho, o que vemos são empregadas domésticas, pedreiros, motoristas, seguranças, lavradores e por aí vai. Onde eu trabalho, por exemplo, não há nenhum negro entre os jornalistas, advogados, economistas, administradores, psicólogos, assistentes sociais, nutricionistas, secretárias e recepcionistas; mas há entre as faxineiras e os seguranças. E essa é uma realidade nacional. Segundo pesquisa do Ibope com o Instituto Ethos, apenas 3,5% dos cargos de nível executivo nas maiores companhias brasileiras pertencem a negros. Para as mulheres negras, a situação é ainda mais cruel, já que elas sofrem um duplo preconceito e não chega a 0,5% a porcentagem de negras em cargos executivos. E os negros são 49,5% da população do país! Outra pesquisa, feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que, em 2008, a população negra será maioria no Brasil.
Uma das explicações está no limitado acesso dos negros a educação básica e superior de qualidade. Comparando com outros candidatos, que estudaram em escola particular, cursaram universidades de elite e aprenderam vários idiomas, eles ficam em enorme desvantagem. Por isso, foi criado o sistema de cotas em universidades públicas – que, aliás, é outro tema controverso, uma vez que quem se beneficia disso nem sempre é, necessariamente, aquele negro que não tem condições financeiras e eu sou a favor das cotas por condição social e não por cor da pele.
O que existe, de fato, é o preconceito, tanto o velado quanto o declarado. Em novelas, por exemplo, o negro ainda é tratado como empregado. Mesmo em “Duas Caras”, que levanta a bandeira contra todo o tipo de preconceito, o que vemos é uma comunidade repleta de negros, com destaque para um terreiro de umbanda comandado por uma mãe-preta vivida pela recordista em interpretar escravas na tevê Chica Xavier. Na trama, alguns negros passaram a freqüentar a universidade por meio do sistema de cotas, mas não há ninguém de cor entre os professores e conselheiros, por exemplo. Ao contrário, há um jovem playboyzinho negro que se passa por pobre para se sobressair como líder estudantil, porque, afinal, negro rico é tão raro que a turma nem lhe daria crédito…
O maior mérito do autor, mesmo, é o lançamento do personagem Evilásio (Lázaro Ramos) como o herói da novela, mostrando o preconceito com o fato de ser um negro favelado e a superação, já que ele será eleito vereador. Mas ainda há de chegar o dia em que veremos Chica Xavier como a todo-poderosa empresária de uma holding, tendo Suzana Vieira como cozinheira e José Wilker como motorista (ok, a Preta Gil pode ser a mocinha rica que se apaixona por um Fábio Assunção louro de olhos azuis favelado). Pelo menos em novelas, já que, na vida real, parece que pouquíssimos negros deixarão de ser escravos…
Para refletir:
“A escravidão é um ciclo. Ontem eu tinha um dono e fazia de tudo para conseguir minha alforria. Hoje, saio pelas ruas, com currículo na mão, a procura de algum dono que me contrate por algumas horas, meses ou se tiver a sorte por anos.”
Etiquetas: Duas Caras, Lei Áurea, abolição da escravatura, Princesa Isabel, escravidão no Brasil, igualdade racial, edson santos, alexandre pires, liberdade, negros, população negra no brasil, pesquisa ibope, negros no mercado de trabalho, cota para negros, universidade pública, preconceito, evilásio, lázaro ramos, suzana vieira, josé wilker
Maio 13, 2008 em 4:45 pm
Patrick,
Essa é a realidade brasileira e também de outros países.
É uma pena.
Mas ainda há pessoas que lutam para mudar o cenário…
Abs.
Roberto