Aquele da saudade

By patrickselvatti

Há sete anos, morria a minha avó. Ela era bem velhinha, tinha mal de Alzheimer, ficava na cama, dependia de ajuda para comer e tomar banho e faleceu aos 87 anos. Vivi com ela desde que nasci e é por ela que a saudade me dói mais fundo, uma sensação estranha de vazio, como se um pedaço de carne tivesse sido arrancado de mim.

Saudade é uma palavra que só existe em nosso idioma. Entretanto, pessoas do mundo inteiro sabem o seu significado. Para mim, essa palavra é muito forte. Lembro-me que a dor da saudade é algo que me acompanha desde a minha mais tenra infância. Ainda pequeno, eu já sofria quando ia da casa da minha mãe para a casa da minha avó e vice-versa. Quando viajava e ia visitar meus tios e primos, ficava triste quando voltava – da mesma forma que sentia muita saudade quando eles voltavam para casa quando vinham nos visitar.

Sair da minha cidade também foi uma tarefa muito difícil. Da primeira vez, eu tinha acabado de completar 19 anos. Decidi fazer um cursinho pré-vestibular em BH e me mudei para lá, deixando para trás família, amigos e namorada. Não resisti: não parava de pensar neles, estudei pouco e não passei no vestibular. No ano seguinte, ingressei na faculdade de jornalismo de uma cidade vizinha, mas eu ia e voltava todos os dias para não passar por isso novamente. Até que, no último semestre do curso, fui aprovado em uma seleção para estágio e tive que sair de casa novamente. Desta vez foi um pouco pior: eu tive que morar sozinho. No começo, foi muito difícil. Lembro-me do dia em que minha mãe foi me visitar e, quando ela voltou, desabei a chorar. Mas eu sobrevivi, como sempre. Seis meses depois, já adaptado, um novo baque. A formatura, o fim do estágio e o retorno para casa. Agora, eu sentia saudades dos colegas da faculdade, com os quais convivi durante quatro anos.

Mas nada pior do que a minha mudança para Brasília, mil quilômetros de distância da minha terra. Agora, sim, muito longe de família e amigos de Lavras, de Varginha, de BH, de Minas Gerais. Vim parar num lugar totalmente diferente, com outra cultura, outros hábitos. Estou aqui há cinco anos – completados agora em março – e ainda hoje ainda sinto falta do que ficou para trás. Minha mãe é a pessoa de quem mais sinto falta. Hoje, por acaso, ela está aqui ao meu lado, de passagem, mas já me dói saber que, daqui a alguns dias, ela vai embora novamente. Para ela, então, a dor é ainda maior. Hoje nós já aceitamos melhor a situação, mas é algo que costumamos questionar sempre: por quê pais e filhos muitas vezes precisam se separar de forma tão brusca pela vida?

No meu caso, a razão da separação foi o trabalho. Saí do sul de Minas porque lá eu não conseguiria ser um profissional bem-sucedido. Vim encontrar aqui na capital federal as oportunidades que lá me foram negadas. Mas é muito estranha essa sensação de você ser obrigado a trocar o convívio com as pessoas que ama para estar ao lado de pessoas novas. Entretanto, com o tempo você vai aprendendo a amar outras pessoas, que não substituem as anteriores, mas que vão criando tanta importância em sua vida que você vai sentindo saudade delas também. Hoje eu posso me dar a felicidade de dizer que tenho dois lares e duas famílias que amo muito. O ruim é que, para matar as saudades de uma, eu vou sempre sentir saudades da outra. Mas é a vida…

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